“Os investidores internacionais têm olhado mais para nós”

A Redcatpig Studio é uma start-up de videojogos que nasceu nos Açores pela mão de três gamers com vontade de marcar a diferença e de criar um projeto nacional na áreaMarco Bettencourt é o CEO do projeto que, à conversa com o Link to Leaders, falou sobre as dificuldades de ter um projeto nesta área, das mais-valias da Web Summit e do KEO, o primeiro produto que está a ser desenvolvido pelo estúdio da ilha Terceira.

Como nos contou o gestor do projeto, o sonho dos três amantes de videojogos só foi possível concretizar devido à ajuda de um business angel que investiu o suficiente para sustentar a equipa durante um ano e meio, e de importantes entidades que fomentam o empreendedorismo nas ilhas açorianas, como a Sociedade para o Desenvolvimento dos Açores (SDEA) e a Startup Angra, uma incubadora de Angra do Heroísmo.

Apesar de ainda não ter um produto finalizado, a Redcatpig Studio já atingiu alguns feitos. A nomeação para finalista de melhor jogo de 2018 pela PlayStation Talents Portugal é apenas uma das conquistas da equipa açoriana.

Diria que são, de alguma maneira, penalizados por estarem nos Açores e não em Lisboa?
É engraçado porque na Web Summit tínhamos o nosso booth e estava lá o nosso logótipo com uma pequena descrição que, com todo o orgulho, dizia que somos um estúdio de videojogos dos Açores. Quando as pessoas passavam, incluindo estrangeiros, reconheciam a palavra “Azores” o que é muito bom. Do meu ponto de vista, acho que isso até funciona um pouco a nosso favor, pelo facto de que o tecido criativo lá não é muito grande, o que significa que temos aqui uma margem de projeção bastante superior. Para além disto, está a haver uma série de medidas locais para fomento do empreendedorismo pelas entidades públicas, nomeadamente pela Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores (SDEA). Acredito que pelo facto de sermos pequenos e algo diferentes chamamos ainda mais a atenção das pessoas.

Como é que surgiu o projeto?
A Redcatpig Studio nasceu há dois anos, quando dois colaboradores de uma empresa anterior vêm falar comigo e me dizem que estão a desenvolver um projeto à noite e que queriam que eu fizesse parte. Somos os três gamers, mas eles optam por jogar os videojogos atuais e eu prefiro uma “onda” mais vintage, como Super Mário, por exemplo. Quando me propuseram isto, disse-lhes que adorava avançar numa aventura destas, mas, claro, que iria ser uma aventura que precisava de nós a tempo inteiro e, para estarmos a tempo inteiro, naturalmente precisamos de financiamento. Nem eu nem eles tínhamos essa capacidade e, infelizmente, nenhum de nós podia recorrer aquele fundo internacional chamado “paitrocínio”. Por isso, pedi-lhes que me fizessem alguns sketches, mesmo em folhas, daquilo que seria o KEO – o nosso primeiro jogo – e eu desenvolvi um plano de negócios com algumas previsões de vendas e um estudo de mercado. Peguei neste plano de negócios e apresentei a uma série de pessoas que achei que teriam interesse nesta aventura. Depois de alguns contactos tive sucesso e consegui o apoio de um business angel nacional. Esta pessoa, apenas com base num plano de negócios e em alguns sketches feitos pela equipa acreditou em nós. Gosto de acreditar que o que vendeu a ideia foi mesmo a equipa.

“O objetivo é a angariação de uma segunda ronda de investimento porque temos uma demo, mas ainda não é nada que possa ser rentabilizado”.

O que é que fizeram com o dinheiro recebido?
Com o dinheiro deste investimento fomos capazes de nos sustentar durante um ano e meio, comprar material e algumas licenças que eram necessárias, o que nos trouxe à situação atual, em que temos uma demo em alpha, o produto responsável por toda a atração que temos tido. Se não fosse este investimento inicial, a ideia era fantástica, mas não tínhamos conseguido fazer nada.

Atualmente, o objetivo é a angariação de uma segunda ronda de investimento porque temos uma demo, mas ainda não é nada que possa ser rentabilizado.

“Os investidores que têm medo de entrar na indústria gaming começam a ver isto como uma mais-valia porque diminuem o risco”.

Quanto é que receberam deste business angel?
Preferia não revelar o valor por razões estratégicas. Hoje em dia, a indústria gaming tem tido um boostem Portugal e nós também ganhamos com isso. Graças a isso, com os contactos que tenho tido nos últimos dias, os investidores internacionais têm olhado mais para nós. Estas pessoas ainda não estão na área gaming, mas têm uma vontade tremenda de o fazer. Quando olham para Portugal percebem que existem muitas pessoas com talento, capacidades técnicas tremendas e com um custo mais baixo do que lá fora. Ou seja, enquanto temos estúdios aqui em Portugal que precisam de 100 mil euros para fazer uma demo, esse valor seria de 200 mil euros na Alemanha ou de 300 mil euros nos Estados Unidos. Os investidores que têm medo de entrar na indústria gaming começam a ver isto como uma mais-valia porque diminuem o risco.

Em que consiste o KEO?
A nossa ideia foi embarcar um pouco na onda daquilo que está a atrair todas as atenções hoje em dia, que é o multiplayer. No entanto, com o nosso input e gosto pessoal, tentando sempre marcar a diferença com aquilo que já existe no mercado. É algo extremamente difícil. Só na Steam – uma das maiores plataformas digitais de distribuição de videojogos do mundo – temos 50 jogos novos diariamente, o que significa que é bastante difícil marcar a diferença neste universo. Portanto, o nosso papel aqui foi tentar fazer algo diferente daquilo que já existe no mercado, mas seguindo algumas das tendências.

Daí surgiu o KEO, que é um MOBA (multiplayer online battle arena) em que há veículos de combate personalizáveis e arenas com diversos tipos de jogos. Este produto tem vindo a chamar a atenção por causa do grafismo, da qualidade da arte, das suas cores vibrantes e também pelo facto de não ser nada obscuro, o que vai ao encontro do nosso principal objetivo, que é alargar ao máximo a possível a faixa etária. Temos testers que vão desde os seis aos 60 anos de idade. Outro objetivo que conseguimos alcançar foi trazer pessoas que, por norma, jogam outro género de videojogos. O pessoal dos carros, por exemplo, que costuma ter alguma aversão a jogos de combate, tem-se mostrado bastante contente com o jogo que criámos. Houve também jogadores profissionais de e-sports nacionais a jogarem o KEO e o input deles foi que se criava facilmente um campeonato do nosso videojogo.

Que é que atualmente é um ângulo fundamental para os jogos online…
É um modo de exposição brutal. Quando se cria uma liga começamos a ter equipas, prémios em dinheiro e, por consequência, um suporte profissionalizado porque começamos a ter jogadores a “brincar” com o jogo profissionalmente. Esta é uma vertente muito importante para nós e temos tido isso em atenção.

Tiveram algum cuidado para tornar o jogo apetecível de ver,  para ser divulgado em plataformas de streaming como a Twitch e o YouTube?
Por enquanto, confesso que não há uma atenção a este tipo de processo. No entanto, é algo que vai fazer parte do próximo desenvolvimento. Há muitas coisas que ainda têm de ser acabadas no jogo e esta é, naturalmente, uma delas.

Como se vai desenvolver o vosso modelo de negócio? Querem que as pessoas paguem pelo jogo ou vão apostar nas microtransações – ou ambos?
Este é outro ponto que ainda não está certo. O que eu posso dizer é que o feedback de algumas distribuidoras aponta para que o jogo deva ser pago, mas não estaríamos a falar de valores acima dos 15 euros.

“É importante deixar bem claro que ninguém pense que vai sair da Web Summit com um cheque na mão. Ninguém vai para lá com um livro de cheques”.

Em relação à Web Summit, continua a haver muito o estigma de que este congresso tecnológico não serve de muito para o desenvolvimento dos projetos dos empreendedores que participam. O que vos diz a vossa experiência?
Se esta pergunta tivesse sido feita há duas semanas eu talvez concordasse com essa afirmação. E, se o fizesse, tinha sido a pessoa mais estúpida à face da Terra.

Agora posso dizer que vale muito a pena, mas tenho de ser sincero em relação a um aspeto: não é só a ideia ou aquilo que se pretende fazer lá, parte muito dos empreendedores também. Tem de se ter muita “cara de pau”, não se pode ter vergonha de fazer um pitch a qualquer momento e eu vi algumas start-ups que não tinham presença em nenhum espaço físico e que foram com as mesmas intenções que todas as outras, mas esperavam que fossem falar com eles – ficavam “acanhados”. E não pode ser assim.

Quem está na Web Summit tem de estar mentalizado de que a vergonha tem de ficar na porta e que têm de ser muito proativos. Os investidores não estão à espera de ninguém, as pessoas é que têm de correr atrás deles. Eu falei com alguns e o que posso dizer é que foram extremamente humanos e diretos ao assunto. Estas pessoas só têm 20 minutos para “perder” com cada projeto e os empreendedores têm de perceber isso. São só três dias. A expressão “tempo é dinheiro” não pode ser mais bem validada do que na Web Summit.

Eu corri quilómetros durante estes três dias e, agora, posso dizer que valeu a pena. Criei contactos e relações interessantes, mas é importante deixar bem claro que ninguém pense que vai sair da Web Summit com um cheque na mão. Ninguém vai para lá com um livro de cheques. O trabalho feito durante estes dias só começa agora, depois da conferência ter acabado e de ter falado com pessoas muito interessantes.

Tais como?
Falei com o head of worldwide marketing da Amazon, por exemplo. Tive uma conversa de 25 minutos extremamente agradável e o que mais me impressionou foi o facto de – depois de termos tido uma pequena conversa para quebrar o gelo – ele me dizer que viu o trailer do jogo e que o achou brutal. Eu arregalei os olhos e disse “posso-me ir embora, já não preciso de falar mais contigo. O que me acabaste de dizer já vale o mundo para mim”.

Estamos a falar de uma pessoa que gere o marketing a nível global de uma das maiores empresas do mundo e que tem mais de 300 pessoas na equipa dele. E é uma pessoa extremamente terra-a-terra e simples, que tem interesse em saber sobre mim, sobre o projeto e que até elogiou o nome do nosso estúdio e a animação do nosso logótipo quando se entra no website. Tudo isto enche-nos a alma e dá-nos força. Podemos ser os mais pobres à face da Terra, mas este tipo de conversas enche-nos. Neste momento, posso dizer que o projeto está parado. Eu sou o único a trabalhar a 100% nele, sem ganhar nada, desde fevereiro, mas isto serve de combustível. Não posso pegar nesta conversa e pagar a conta da luz ou da água do próximo mês, mas dá-me força para continuar a tentar e acreditar que vamos conseguir.

Também conheci uma pessoa que trabalha no marketing da Unity – um dos maiores motores do jogo do mundo – enquanto ela estava a ver o nosso jogo. Quis saber a história do nosso estúdio, que é invulgar. O nosso designer ajudava o pai nas vacas e o nosso programador de vez em quando ia à pesca com o pai. Ambos são autodidatas e fizeram um produto, que não está acabado, mas que dá sinais de um profissionalismo tremendo. E quando começo a contar-lhe isto ela diz-me que é uma história incrível e diz-me que “para nós, enquanto Unity, ter-vos como utilizadores só valida o nosso modelo de negócio. Dá-me o teu cartão que eu vou falar com o meu departamento e vamos fazer uma história sobre vocês”. Temos pessoas deste patamar a querer saber de nós e que não se colocam naquela posição de “estou cá em cima e não tenho tempo para ti, que estás aí em baixo”…

Diria que essa é uma característica muito portuguesa?
Com muita pena minha, sou obrigado a dizer que sim. Sou português com muito orgulho, vivi no Brasil durante 16 anos, mas já tenho 40 anos, já tive empresas e sou obrigado a dizer que sim. Digamos que fui “desconversado” muitas vezes. Enquanto que a Unity e a Amazon, que faturam milhares de milhões, nos deram uma validação, não sentimos o mesmo cá.

Tentei falar com alguns investidores portugueses sobre o projeto e eles simplesmente olhavam para o telemóvel… Já o head of marketing da Amazon tem um telemóvel a receber notificações constantemente e pousa-o de ecrã virado para baixo enquanto está a falar comigo.

“Precisamos de uma quantia para trabalharmos todos a tempo inteiro, ao mesmo tempo que essa pessoa fica com participação num estúdio que pode não ser só de videojogos, visto que este espaço já não é necessariamente B2C”.

Que tipo de investimento necessitam neste momento? É moldável ou têm um número fixo para o que precisam?
Pode ser moldável. Nós não queremos investimento para acabar o KEO, queremos financiar o estúdio. Ou seja, não queremos que invistam no produto, mas sim na equipa. E o feedback que temos tido dos investidores internacionais é que é exatamente isso que eles querem. Não querem um produto, querem uma equipa. E é disso que estamos à procura. Sei que vamos ter de ceder parte da nossa participação na empresa, mas sei que as coisas são sempre assim e estou completamente à vontade com isso. E, ao mesmo tempo, ganhamos um parceiro e é isso que procuramos: alguém que invista em nós e que comece a ter aqui o usufruto do nosso revenue anual. Basicamente é isso. Precisamos de uma quantia para trabalharmos todos a tempo inteiro, ao mesmo tempo que essa pessoa fica com participação num estúdio que pode não ser só de videojogos, visto que este espaço já não é necessariamente B2C (business to client). Temos um crescente interesse das empresas em levar a cabo iniciativas de gamificação, que agora está na moda.

Como a equipa que criou o Slack, que começou a querer desenvolver um videojogo e que acabou por desenvolver uma das maiores plataformas de gestão de trabalho do mundo…
Há muitos exemplos de que isto funciona. O pessoal do marketing das grandes empresas sabe o que quer, mas naturalmente não sabem fazê-lo e querem pessoas com essas especialidades. Esta vertente pode ser bastante interessante para a Redcatpig Studio.

Dentro de toda esta incerteza, quais são os próximos passos para o KEO?
Eu tenho-me ocupado a tempo inteiro do KEO com contactos diários e com idas a eventos sempre que consigo. Apresentar o jogo e o estúdio ao público. Só existe uma pausa no que diz respeito à produção. Enquanto não houver investimento – e não digo isto de uma forma apocalíptica – não produzimos. Havendo, avançamos de imediato para a produção a tempo inteiro. Tenho extrema confiança em toda a equipa e sei o que somos capazes de fazer.

Entretanto, enquanto não há investimento, o resto da equipa tem os seus projetos e eu consigo trabalhar nisto a tempo inteiro graças ao maior investidor que tenho e que é ainda maior que o business angel: a minha esposa. E não falo do ponto de vista financeiro, mas sim de força e fé. Ela está a suportar o forte enquanto eu estou a correr atrás deste projeto. Portanto, para mim, os próximos passos são continuar a bater a portas e dar follow-ups a todos os contactos feitos durante a Web Summit.